
O ultimo minuto...
O corredor parecia um túnel interminável, silencioso, vazio, e frio...
A todo momento eu repetia pra mim "Alguém chega logo, por favor", eu tremia, meu corpo inteiro tremia. A voz mal saia da minha boca, eu sentia meu coração apertado e lágrimas em meu rosto...
Esqueço aquele ultimo minuto de agonia, minha pelo menos... Porque não quero lembrar de minha mãe em seus últimos minutos comigo...
Um dia apagarei tudo que eu vi... Mas enquanto esse momento não chega, prefiro lembrar daquela imagem a 3 meses atrás.
O sorriso fácil, a voz que não parava de falar, e o chapéu que vestia pra passear pelo bairro.
Como definir aquela mulher que me gerou...?
De uma coisa eu tenho absoluta certeza. Tenho muito a aprender com ela...
Coisas tão banais para os dias atuais mas que se tornam de suma importância. Tao simples e aparentemente bobos...
Na verdade, boba era eu... Que não prestava atenção as atitudes da minha mãe!
Esse mundo realmente não era pra ela...
Uma pessoa de uma alma generosa igual a ela. E de uma simplicidade única!
Simplicidade...
Lembro de algumas passagens em minha vida, olhando para ela...
Eu deveria ter uns 6 anos... Acho que era um passeio familiar em algum lugar em Juiz de Fora, eu olhava pra minha mãe e a achava tão grande e forte... Estava frio, então tratei logo de ficar bem agarrada a ela...
Recordando de minha infância de um modo geral. Apesar de ter mais afinidades com meu pai. Era a minha mãe que esteve sempre próxima, pra acolher, proteger, dar broncas...
Uma coisa que me marcou realmente, eram as nossas brigas... Discutíamos muito, de falar e falar sem parar...Após a "briga" eu ficava no meu quarto, mas que danada, ela vinha meia hora depois conversando normalmente comigo, como se nada tivesse acontecido...E eu dizia: -Mãe, a gente tá brigada!!!"....
Ela nunca parou de falar comigo mesmo que eu estivesse brigada com ela...
Um mimo...
Ela preparava meu almoço pra levar no trabalho. Eu dizia que poderia ser qualquer coisa, até o que havia sobrado. Mas ela fazia questão de preparar tudo fresquinho, ou o melhor possível... Só a minha mãe mesmo!
Pequenos gestos que marcam... E uma delas, da qual vou sentir muita falta. Era vê-la me acompanhar até o carro e me dizia bem alto e claro: -Vai com Deus...
e eu respondia : -Fica com Deus também!
Era a primeira a se levantar...e a última a se deitar...
Adorava ver meus trabalhos de fotografia, dizia que eram lindos mesmo que eu falasse o contrário...
E como era conhecida aqui no bairro, tanta gente com quem ela conversava e mantinha a amizade. Muitas pessoas, de quem eu mal ouvi falar.
Ajudava como podia, como buscar verduras pra uma nova moradora aqui perto de casa.
Certa vez, um motoqueiro que se desequilibrou e perdeu sua entrega pelo chão da rua. Preocupada, sem conhecer o rapaz, ela juntou os sanduiches, pra que ninguém roubasse, e devolver ao entregador.
Pintava quadros e presenteava amigos, pelo simples fato de gostar de arte e querer agradar aqueles que admiravam seus trabalhos.
E tinha um fôlego de invejar. Numa caminhada pelo Jardim Botânico no Rio de Janeiro, nós três, minha irmãzinha, cunhado e eu...
No meio do passeio, estávamos esgotados, tanto que sentamos na escada e paramos.
E minha mãe, super disposta, com uma energia que não se esgotava nunca...
Casou tarde pra sua geração, mas em compensação teve quatro filhas. Que lhe trouxeram muitas alegrias, um pouco de dor de cabeça mas muito orgulho, ontem, hoje e sempre!
É nessas horas que me pego pensando alto, longe, em minha mãe...
O que realmente importa?
Quanto tempo temos?
O que me faz feliz de verdade?
Com quem eu seria feliz?
O que eu quero pra minha vida?
Não quero envelhecer só...
Tenho tantos projetos pra serem realizados!
Eu vou dar conta?
Eu serei uma boa mãe um dia?
Não quero ser triste...
Não quero perder tempo brigando com meu pai...
Alguém me encontre!
...
Eu não sabia como terminaria essa história... Pensei muito, no que escreveria...
E hoje ao reencontrar uma pessoa querida no hospital, veio o que me faltava. Ela estava aos prantos ao me abraçar, com muita compaixão em suas palavras.
Disse me : " -Se não fosse por ela você não estaria aqui e agora, eu agradeço a ela por você estar aqui, ela também está, o sangue dela corre em suas veias..."
Mas sei que ela está comigo, sou uma de suas continuidades, sou um pouquinho dela também.
Esqueço, apago da minha memória aquele rosto vazio, do quarto do hospital, do corredor, daquela última noite...
Fica uma saudade imensa...
Minha mãe, dona Sueli, a senhora do chapéu, do sorriso, anjo aqui da terra...
Olhe por nós.
Descanse em paz.