quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Janela, porta ou campainha?


A pequena menina de grandes olhos amendoados e cabelos lisos castanhos claros olhou pra mim e disse:

...-É so um pesadelo, acorda!!!

Acordei, ou continuo sonhando?
Tem dias em que o céu é implacável, a chuva só cai na minha cabeça. Nem trevos de quatro folhas, arruda, pé de coelho ou ferradura aliviam de longe essa "urucubaca dos infernos"...

Santo milagre, amuleto, talismã...

Carrego comigo junto ao coração.

Rezo dois pai nosso e duas ave maria, todo santo dia antes de sair correndo pra labutar.

Acredito nas palavras proferidas e mal ditas. Cuidado com a língua ferina.

Aquela história sem pé nem cabeça tem um fundo verídico e profundo sem fundo. Cuidado pra não cair na lábia da boca "maledita"...


Eu corro, ou ele corre e pára. Não páro no meu lugar, ando pra trás e tudo se inverte ou desinverte num compasso desajeitado.

O sol amanhece e se põe no mesmo lugar não faz sentido querer entender....

Enlouqueci...Me mandem de volta pra lugar algum.

Páaaaaara....

Acordei...

Hora de acordar, abrir os olhos, separar a minha roupa, tomar banho, cadê meu chá, o horário, será que dá tempo?
A conta, o papel, o celular, onde tá a chave, a carteira...
A porta se abriu....

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Meus novos olhos...



O que era apenas um capricho, desejo, uma vontade... Transformou-se em conformidade.

Quando criança, eu era louca pra ter um óculos. Achava o máximo usar tal acessorio, sempre quis ter um de verdade.

Hoje, obrigo-me a usá-lo contra minha vontade, pois "ele" é um sinal de que por mais que tenha corrido do tempo ele conseguiu finalmente me pegar...

A maioria das pessoas comum ao meu convívio quase não me reconhecem. Todos falam "Nossa como você ficou diferente..." e eu respondo eu sei...-Tô me sentindo como se fosse de outro planeta..."

É nessas horas que eu tenho surto psicótico? Ahhh...sem exageros também não...
Mas penso, olho lá pra trás e vejo que caminhei um bocado, mas não terminei, não estou no meio dela.

Só sei que tem muito chão pela frente, e a caminhada esse ano vai ser puxada...
Muitos declives, muitas curvas, e ruas ingremes...

Suspiro, mas...

Eu enxergo longe com meus novos olhos... eu ja estou lá do outro lado!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Perda...


Há uns 3 ou 4 anos, eu estava no banheiro. Arrumando o cabelo e olhando para o espelho.

Num movimento rápido, descuidei me e o brinco pulou da minha orelha caindo direto pra pia. Minhas duas mãos esquerdas... Foi tudo tão rápido, quando percebi o brinco desceu pela pia e em seguida pelo encanamento logo abaixo.

Fiquei transtornada, quase louca... Retirei parte da pia, do encanamento. Pequei lanterna, fio de metal, alicate, chave de fenda. Puxa daqui, empurra dali.

E nada do brinco...

Fiquei horas... Tentando resgatar meu brinco de prata, único e especial.

Dei me por vencida depois que vasculhei tudo e estava exausta e frustrada. Provavelmente o brinco foi direto para o esgoto.

Fiquei um pouco obcecada. Não queria admitir pra mim mesma que havia perdido o brinco...
E que a culpa era minha.

Foi ridículo ao extremo, quando me lembro da cena. Eu, agachada, toda suja, e mexendo no encanamento da pia.

As vezes, é tão difícil deixar que certa coisas irem embora sem o seu consentimento...

domingo, 25 de janeiro de 2009

Molas nos meus pés...parte 2


Eu estava decidida a deixar de lado o meu violão e as aulas, meu jovem professor, Archimedes, triste por minha desistência, aconselhou : - Não páre de treinar em casa, se parar vai ser difícil voltar...

Abandonei minhas aulas de violão clássico, pra ter mais tempo com meu ex namorado... Que perda de tempo, fazia parte de mim, e modéstia parte eu mandava bem. Cheguei a executar a Valsa Choro de Villa Lobos, muito bem...

O dia da Audição... Como eu tremia de nervosismo! Dava-me ansiar pensar que tocaria na frente de tanta gente...
Mas Archimedes estava lá, e tocaria o segundo violão... Naquela época, eu tocava razoavelmente, errei tanto, mas continuei porque meu professor estava ao meu lado e confiante. Foi um alívio quando chegou o fim da última música.

Voltando...

Eu abandonei a mim mesma quando abri mão de tocar meu violão...

Nunca mais voltei a tocar, só a recordação dos acordes ecoando pela varanda.

...

Meu rosto era pálido e distante, tentava manter a sanidade dentro da minha cabeça enquanto eu trabalhava, vidas dependiam que eu estivesse consciente das minhas ações.
Então, eu trabalhava e quando sentia um aperto maior que chegasse a me sufocar, ausentava-me por alguns minutos e desaguava minha dor em lágrimas, pensava ... Ele partiu, e eu estou só...

Assim era minha rotina, trabalhava e chorava de vez em quando. Chegava em casa, chorava .... E á noite chorava antes de dormir...

Tive pesadelos, e o pior deles era cair e acordar no sonho "perfeito". Aquele em que tudo parecia ontem, no mesmo lugar. Um rosto conhecido, o rosto dele, que eu desesperadamente tentava esquecer e sufocar no me peito. O sonho era sempre o mesmo não tinhamos rompido, era como se nada tivesse acontecido de verdade. E quando eu acordava, sentia me feliz por um segundo, e depois chorava aflita e com dor... Era apenas um sonho, eu caía em desespero...

Haviam muitas lembranças dele enraizadas no meu coração...
Terminamos brigados, infelizmente. Para sobreviver a esses pesadelos ou lembrança que me arrastavam para o passado, matei essas raízes, aos poucos, não todas, mas a maioria...

Até que sua imagem, voz, beijo e abraço fossem uma vaga lembrança... Passado, finalmente.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Isso tem sabor de infância


Quando penso em infância vários sabores voltam ao meu paladar. Mas não como antigamente, parece que tudo muda quando crescemos...

Leite achocolatado, caramelo, e morango na embalagem triangualar...

Dadinhos de monte...

Chocolate de guarda-chuva...

Mistura de refrigerantes, guaraná, fanta laranja, fanta uva, coca-cola, soda limonada e picolé de uva...

Sorvete de massa de morango...

Bala de açucar colorido nas pulseiras de flor...

Pipoca cor-de-rosa feito de arroz...

Doce de abóbora em formato de coração...

Algodão doce...

Bolinho ana maria...

Já não sou muito fã da maioria dessa lista. Mas relembrá-las traz tantas lembranças divertidas e inesquecíveis...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Até amanhã!...


O hospital encontrava-se lotado como sempre, e tudo estava no seu devido lugar, e todos trabalhando.

Foi um dia diferente pra mim, estar ali, pois era meu último dia de trabalho. Todos sabiam da minha partida, colegas, chefes e conhecidos...

Mas, haviam os pacientes que estavam sob meus cuidados durante muitos dias, muitas semanas.

Iracema e Geraldo, estes foram os nomes que guardei, não por acaso, eles não sabiam que eu estava partindo para outro lugar, outro emprego.

Eu aguardava ansiosa o relógio alcançar a hora da saída. Preparei-me pra sair, pensando em tudo, prós e contras. Absolutamente tudo, desejava estar em outro lugar que não fosse lá na enfermaria ou naquele hospital, por questões profissionais, excuindo os pacientes.

Dona Iracema, saía do banheiro com sua caixa organizada de produtos de higiene e beleza.
Bati na porta e fui entrando, vi seus sinais vitais e conversávamos, quando disse entusiamada: - Hoje, é meu último dia aqui, pedi demissão...

Não deveria ter dito isso ... Seu rosto triste já demonstrava tudo quando ela olhou pra mim dizendo que ia faltar alguém pra conversar, pra estar ali...

"Seu Geraldo", homem forte, mesmo com as limitações, sempre estava disposto a enfrentar a paralizia que o afetava.
Lembro que ele sempre se esforçava pra fazer tudo sozinho...
Num deslize, acabei contando que era meu último dia... Eu e minha boca grande!
Ele começou a chorar, e fiz de tudo pra que se acalmasse, dizia que haveriam outras pessoas que cuidariam dele.

Não pensei nos sentimentos alheios, e nunca imaginei que pacientes fossem sentir a falta da minha presença...
Se pudesse voltar nesses minutos de despedida, fingiria um dia normal da semana...
Só... e quando realmente houvesse chegado a hora, apenas diria "Até amanhã!!!"

Despedida...
Desligar-se...
Separação...
Acabar...
Por um ponto final...

As palavras podem diversificar-se, mas não muda em nada o processo. Eu acreditava que tais palavras deveriam ser ditas a cada mudança sem pesares ...
Eu estava plenamente enganada, isso apenas funciona teoricamente. Nenhuma despedida é tão fácil dessse modo.

A despedida é dolorosa, triste, no entanto muitas vezes se faz necessária...

Mas... Talvez, bastasse dizer : -Até amanhã...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A menina atrás do portão...


O bairro era residencial, então só crianças circulavam pela rua, andando, brincando, conversando, passeando de bicicleta...

A menina que morava do outro lado da rua, não conversava, a maior parte do tempo, vivia reclusa na frente da sua casa, presa para não fugir ou machucar ninguém...

Ela gritava muito, e quando se aproximava das crianças, mordia-lhes as mão...

Pobre criança...

Não que fosse algo marcante pra mim. Pois por muito tempo ela se perdeu em minhas lembranças.

Um dia de volta aquela cidade onde passei parte da minha infancia, a vizinha que pensávamos nunca mais reencontrar, estava lá...

E relembrando outros tempos, muitas pessoas, a menina chegou ao assunto da mesa...
O que aconteceu com aquela menina, aquela que morava na casa da frente?...

A velha senhora, franziu a testa olhando pra baixo, e lamentando-se olhou pra nós contou...

- A Camila não...? Depois que vocês se mudaram, uns 5 anos depois ela morreu...
Ela ficou uma noite inteira do lado de fora junto ao portão, era inverno e estava muito frio. Ninguém a viu... Encontraram na de manhã com as duas mãos segurando as grades do portão...

Naquela hora, pesamos sua perda e mais nada.

Mas hoje relembrando o que havia acontecido. Volto ao passado, lembro do medo que tinhamos dela por não compreender seu mundo e suas atitudes.

Nesse caso, acredito que por mais irracionais fossem suas atitudes. Ela era apenas uma criança solitária...

Recordo me dos dias, aos finais de semana, todas as crianças, incluindo eu e minha irmãzinha, brincando e correndo pela rua, e lá distante, e do outro lado da calçada, a menina observando e segurando as duas mãos no portão.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Primeira entrevista...

1996...

Terminei o colégio técnico. E queria trabalhar como técnica em enfermagem, mandei curriculum para todos os hospitais.

Um dia, chamaram-me para comparecer ao hospital maternidade. Acordei cedo, preparei toda minha roupa na noite anterior.
Uma camisa manga longa rosa bebê, calça marrom e sapatos.

Confiante, com batom rosa na boca, peguei o ônibus para a minha primeira entrevista.

Aguardei na recepção até ser chamada. Minutos depois, a moça pediu que viesse até a sala dela.
Sentei, e daí começou o interrogatório sobre a minha vida pessoal e profissional.

A conversa fluia, tudo seguia muito bem, faltava mais um passo pra entrar naquele hospital...

Uma última pergunta, disse a psicóloga:- Você continuará seus estudos? Prentende fazer faculdade? Qual curso?

Respondi, mas nem prestei atenção as minhas palavras...Lerda, idiota, burra!
: - Ah sim, pretendo continuar a estudar, vou prestar Veterinária!!!

A psicóloga franziu a testa, e disse: - Mas não temos o curso de Veterinária em Campinas, o mais próximo seria em São Paulo?!?...

E respondi de volta: - Ah, é verdade, não tem né?...

sábado, 17 de janeiro de 2009

Dejavu...

Pela segunda vez, quase fui ao chão se nao fosse por minha irmazinha...


Numa manhã, na escola, na quarta série. A classe toda encontrava-se em pares, ensaiando para as festas juninas...

Todas as crianças, muitas crianças enfileiradas na quadra de esportes da escola.

Não tocavam música, era somente um ensaio geral. O sinal da saída tocou, e aquelas crianças desesperadas transformaram-se num estouro de gado.

Eu estava no meio, não corri o suficiente, no tumulto, o empurra daqui e dali, perdi o equilibrio...
Fui direto para o chão...

Três meninas, bom...
Duas e meia subiam o morro, voltei pra casa, no meio delas, sendo arrastada.

Lá do alto, minha mãe, que me aguardava do alto da colina, cobriu a boca...
- O que aconteceu...?

Fomos direto pra farmácia, onde o balconista pegou os curativos e os separou.
E disse: - Esse olho vai ficar roxo... Posso fazer uma simpatia?
Minha mãe: - Sim, pode...

Fiquei parada como uma estátua, meu olho estava doendo mas não entendi porque ele se aproximara com aquela tesoura em cima do meu olho.

Minha irmãzinha devia ter uns 6 anos, de repente, arregalou os olhos e se agarrou a calça da nossa mãe e escondeu seu rosto...

Ele disse: -É uma simpatia da minha avó, é só colocar qualquer peça de metal na área que foi batida pra não ficar roxo...

Ufa!

...

Show do Capital Inicial, quinta a noite, um dos últimos shows dentro ginásio.

O lugar estava lotado, mas tudo bem, valia a pena estar ali pertinho do palco, da banda...

Começaram a tocar o repertório, todas elas, das mais conhecidas as mais antigas, baladas e as pesadas que fizeram tremer o chão.

Minhas irmãs, eu e alguns amigos da minha irmãzinha tentávamos permanecer todos juntos. Impossivel...

O pior estava por vir...

Quando começou a tocar "Veraneio vascaína". Não sei se foi pela música, o calor que fazia lá dentro, o ácool no sangue ou se todos estavam por demais alterados com a música alta e pesada.

Eu não conseguia ficar no mesmo lugar, muito menos manter meus pés no chão...
Alguém lá do outro lado empurrou todos, o efeito veio como dominó e lá estava eu bem no meio...

O impacto era inevitável, a onda se aproximava e já sentia meu corpo inclinando e quase caindo em direção ao chão.

Numa fraçao de segundos, estiquei meu braço e quase fui. Mas não, ela chegou a tempo!

Imaginei meu corpo debaixo de tantos sapatos...Pela segunda vez...


Salva pela super- irmãzinha!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Magrela morta e gordinha feliz...


Magrela morta ou gordinha feliz...?

Numa tarde, trabalhando, minha amiga aparentava certa tristeza em seu rosto e desabafou: - Um amigo dele morreu, ele tá muito triste. Imagina, da nossa idade, novo, com familia, namorada, emprego... Por que a gente se mata tanto na academia, pra ficar magrinha...?

Eu também fiquei pensando naquele dia...

Não sou nenhuma modelo, mas então pra que ter um corpo escultural...? E ter que passar por regimes, privações, e horas suando numa academia... Insanidade!

Ter hábitos saudáveis, tudo bem... Mas não a ponto de sacrificar tudo, pra ser a pessoa malhada e magrinha...?

Qualquer um sem exclusões, como dizem naquela frase...- Basta estar vivo pra morrer...

Vivo minha vida em equilibrio, mas sem exageros.
Entro na padaria, eu não olho as calorias daquela bomba de chocolate... Apenas prefiro ser a gordinha feliz...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Carinha de anjo...

Sala de espera...

Olhava para um lado e haviam algumas gestantes, do outro lado mais gestantes chegando a sala de espera perto das poltronas.

E a minha frente, minha irmã e cunhado, nervosos e ansiosos.

Era de manhã... Estava de corpo presente mas sonada, e recordava o tempo...Maio de 2005!

Preparativos do casamento, convite, buffet, local, docinhos, roupa, padre, chácara...
Correria... Mas veio o convite...
Madrinha? Eu? Muito legal...Mas não vai dar, esqueceu? Vou fotografar o casamento de vocês!

Minutos depois, a solução é essa mesma eu deixo de ser a madrinha de casamento pra ser "a dindinha "do primeiro filho do casal...

...

Dois anos depois...- Tô gravida, confirmei pelo exame de sangue!!!

Mal recebi a notícia e já estava comprando coisinha de bebê, para a minha afilhada. Toalhinha, babador, meias, conjuntinhos.

Voltando aquela hora de manha, sentada naquela poltrona e vendo tv, e aguardando. Ouvindo o auto falante, chamaram minha irmã, havia chegado finalmente a hora do preparo antes do parto.

Não entrei na sala de parto, fiquei aguardando do lado de fora do centro obstetrico. Eu e mais uns familiares de outras gestantes. Todos na expectativa, ansiosos, aguardando do lado de fora, com câmeras e filmadoras à postos.

De repente, abriram a cortina da janela, e pude ver de longe meu cunhado se aproximando...
E quem estava toda embrulhadinha, era a minha sobrinha... Olhei para aquele rostinho pequeno, de olhinhos puxados, narizinho e boquinha em "v"... Gesticulei para o meu cunhado: - É a cara da minha irmãzinha...

Muitas lembranças felizes vieram a florar naquele momento especial... Nossa ligação como irmãs, amigas e confidentes. Nossa infância e adolescencia dividindo o mesmo quarto, brigando, brincando e conversando a noite. Sua formatura, namoro, casamento e agora a filhinha!

Enxergava a minha irmãzinha naquele rostinho de anjo...

Aquele rostinho de anjo, agora tem rosto de menina sapeca e levada.
Aquele toquinho de gente, andando pela sala.
Aqueles olhinhos não choram mais no meu colo.

- Diiiii...Com os braços erguidos, veio me abraçar.

Esse anjinho sapeca que mora no meu coração!....

Um dia ensolarado...


Dia 16 de setembro, cinco horas da tarde, dia anterior ao casamento da minha irmã caçula. Eu estava na cozinha fazendo faxina, enquanto o pessoal foi conhecer a chácara onde seria a cerimônia e festa.

Parecia que o céu ia desabar, nuvens negras e carregadas, o vento que vinha do sul, o cheiro de chuva pairava no ar...

E já nesses dias era impossível prever o tempo. Poderia chover... Poderia fazer sol...

Mas vendo toda aquela escuridão numa plena tarde de primavera o dia seguinte estava propenso a chuva e mais água.

Ajudei a organizar o casamento, e sabíamos dessa possibilidade. Reservamos um plano B, caso houvesse necessidade usaríamos o mesmo salão pra cerimônia e festa.

Mesmo assim eu me sentia frustrada, toda correria pra agendar, ajeitar, arrumar e fotografar na área externa, naquele campinho de grama verde... E no final terminar no salão?

Ah... O que eu poderia fazer, eu não controlo o tempo!

Então, só restou apelar aos céus...
Pedi a São Pedro pra segurar a chuva...

Antes de dormir, lembrei da minha tia que faleceu no ano anterior. Pensei nela, como ela gostaria de estar presente no dia...
E pedi um céu ensolarado pra minha irmãzinha do coração...

Dormi pouco e ansiosa pelo dia seguinte. Coloquei o relógio pra despertar cedo, logo ás seis horas.
Mal levantei da cama, após o tilintar do despertado, fui direto pra janela.
Eu já ouvia a cantoria de pássarinhos no quintal.
Um céu azul anil bem na minha frente. E não havia sinal algum de nuvens, vento ou cheiro de chuva.

Agradeci aos céus e em especial a minha tia Nori, por seu presente e carinho...

Sapatos apertados...

Hoje pela manhã, ouvi a discussão que houve por causa de uma agenda. A imposição do pai e a vontade da filha. E quem, nos caso, os pais, sabiam sempre o que era melhor para os seus filhos.

Essa agenda trouxe me recorações da infância...
E a imagem que me veio na cabeça foi um tenis branco, azul e vermelho...
Um par tenis que eu não queria, não fui eu que escolhi e para completar eram apertados...

Apesar de meu pai ser presente, ele não tinha muita percepção sobre o que me deixaria feliz. Mas ele sabia o que era o "melhor pra mim"...

Assim, nesse caso do tenis e outras mais, aceitei aqueles sapatos apertados pra mim...
Era o certo, o correto, o melhor pra mim...

Essa condição de sapatos apertados foi saturando até chegar ao ponto de não apreciar a companhia de meu pai por muito tempo...

Fui descobrindo aos poucos que eu não precisava que ninguém falasse o que seria o certo pra mim. Eu poderia decidir sozinha acertando ou errando...
Eu havia crescido.

E hoje, passo horas na loja, ou seja onde for, sem correria, afobação ou pressa.
Sejam sapatos, sandálias, roupas... Não importa o que seja, eu compro o que é melhor pra mim e me faz realmente feliz...

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Coquetel molotov...

Meu primeiro pileque de verdade foi um verdadeiro coquetel molotov...

Fazia pose de durona, estilo "bad girl", tinha uns trocados no meu bolso, toda de preto e pronta pra ir ao local de destino...
Só havia esquecido de um pequeno detalhe... Levar um estômago e um fígado a prova de álcool...

Ai meu estômago, meu fígado, cabeça, corpo... Onde todos foram parar depois dessa bomba álcoolica...

Eu queria me encaixar no meu grupo, e apenas ser igual a elas, descoladas...

Eu senti mesmo meu cérebro descolar da minha cabecinha oca, isso sim.

Chegamos no barzinho e a única coisa sólida que me lembro ter ingerido foi uma coxinha...
E ai já pediram uma cerva, a mais forte, uma daquelas "bock", depois veio um cinzano...
As meninas falavam tanto, eu ria tanto, mas nem sei do que estava rindo alegre.

Só que não parou naquela bebida vermelha e engraçada pra mim, podia ter parado ai mesmo.
Mas não...
Veio uma caipirinha e pra arrematar um "dreyer"...

Nada parava no lugar, ou eu não conseguia ficar parada, ou realmente o mundo rodava e girava sem parar... Eu consegui voltar pra casa, e era inevitável o efeito colateral dessa ingestão álcoolica desastrosa...

Fui direto pro banheiro e uuuuuuuugo...
Eca...
Minha mãe, de longe :- O que aconteceu...?
E eu, branca respondi: - Nada mãe, foi só uma bendita coxinha...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Desabafo...

Vida... Tempos modernos...Correria...Violencia...Loucura...

O que falta pra eu chegar ao limite da minha razão. E o que me segura pra não querer passar esse limite?

Antigamente, vivia desafiando o perigo sem ter medo de morrer. Brigava com quem quer que fosse. Até o motorista daquele passat preto que cortou a minha frente.
Saí do carro batendo palavras de moral no ouvido de quem possivelmente não iria se contentar em contra atacar apenas com palavras...

Um amigo me perguntou uma vez : - Você seria capaz de matar alguem? A princípio pensei que não... Mas pensei melhor relembrando várias histórias do hospital, do jornal e tv.
E respondi : -Eu não sei... Não posso afirmar nem negar...

5 minutos bastam pra mudar uma vida inteira ou terminar com ela...

Penso muitas vezes no monstro que foi crescendo dentro de mim, mas consegui domá-lo...
Mas até quando?

Liberdade é uma palavra restrita, pois vivemos prisioneiros em muros de concreto e portões de aço, do relógio que não nos pertence, e da pessoa que não posso ser.
Muitas vezes ao sair de carro, eu vestia um boné pra parecer um moleque pra minha segurança.

Hoje, rezo antes de sair de casa. Peço proteção pois não sei voltarei pra casa...
E respiro fundo, controlo meus impulsos, medos e o monstro que mora dentro de mim...

Mas quem vai controlar os outros monstrinhos que andam adormecidos a ponto de explodirem?

domingo, 11 de janeiro de 2009

Bullying...


"Crianças não tem maldade nenhuma"... Já ouvi isso, e não sei quem pode acreditar nessa frase.

A realidade dos grupinhos infantis é totalmente diferente do ideal que os pais sonham para os seus filhos.

Eu era uma nerdizinha inofensiva, o alvo preferido daqueles, ou melhor daquelas que se denominavam donas do pedaço...

Minha educação familiar nunca me ensinou como deveria me comportar nessas horas... Ai de mim, não revidava, estava acuada e sozinha.

A perseguição...

Tudo começa por causa dos olhos diferentes que são amendoados e orientais...
A hora do intervalo, era a preferida para os ataques que no começo eram só verbais...
Não me recordo exatamente das palavras ofensivas que me fizeram chorar durante dias.
Ainda bem que sempre que quero esquecer algo ruim da minha vida, eu realmente acabo deletando de vez da memória.

...

Tudo em mim era errado e tranformava-se em piadas de mal gosto. O cabelo, os olhos, o jeito de falar, minhas roupas, até o meu lanche...

Foram semanas de tortura, sendo o motivo de chacotas e chorando antes de dormir...

E mais um dia que seria igual aos outros. Não foi...
Havia chegado a hora de dar um basta àquela situação. Não sei de onde eu tirei tanta força pra enfrentar as duas meninas que me maltratavam...

Estava eu sentada, sozinha e já vieram me atormentar. Falando no pé do meu ouvido...

Eu revidei pela primeira vez... Respondi alto, e avisei que iria partir pra agressão física caso continuassem, eu iria me machucar muito, eu sabia disso mas valeria a pena...
Perceberam que eu não estava blefando e se afastaram.

Desde aquele dia esqueceram que eu existia.

Eu continuei a minha vida, aprendi a me defender e esqueci seus nomes e rostos...

Bolinha...

Quem era Bolinha?...

Um dia, meu pai trouxe da casa da minha avó um lindo cãozinho, pequeno e caramelo para a vizinha ao lado que morava sozinha. Pensando nela, para sua proteção e mais um amigo pra lhe fazer companhia.

O muro que separava nossas casas era branco e baixo dava pra conversar de perto sem esticar as pernas...

O lindo cãozinho foi crescendo e crescendo. Pra um "sem raça", ele tinha porte e tamanho de um "dog alemão"

Sempre que a gente passava perto do muro e assobiávamos ele vinha correndo, ou quando percebia algum barulho suspeito.

Bonzinho... Mas até que ponto?...

Brincando de peteca, numa tarde qualquer, um saque ... E a devolução foi rebatida lá pro alto mas do lado errado. Voou e foi parar depois do muro.

Chamamos, gritamos pela vizinha e ninguém respondia...

Minha irmã perguntou : - E agora, quem vai pegar?...

E respondi: - Eu vou, deixa que eu pulo o muro...

Olhei pra frente e nada do Bolinha, olhei novamente lá no fundo e nada dele. O campo estava livre, subi no muro, virei meu corpo e pernas pra baixo e fui direto para o chão.

Andei, agachei e peguei a bendita peteca. De repente ouvi um barulho lá do fundo da casa, e vindo em minha direção...

Só ouvi a minha irmãzinha gritando do outro lado: - Corre, corre....Sai dai já....

Olhei pra trás e vi de relance um vulto correndo.
Eu corri e num impulso pulei, agarrei me ao muro com todas as minhas forças, apoiei meus pés toda desengonçada.
Meu coração palpitava tão forte.
Com o impulso do meu corpo contra a parede bati meu tórax bem no meio, sufoco, fiquei sem ar, mas passei...

Por uma fração de segundos... Bolinha não abocanhou minha canela....

Do outro lado, Bolinha sorrindo e abanando o rabo.

E eu desse lado estirada no chão.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Obediência...


É engraçado lembrar dessa história por um lado mas por outro fica claro o quanto é forte a influência dos pais quando são presentes e rédea curta com os filhos...

Era final de ano, e tradicionalmente aconteciam aquelas reuniões de confraternização dos funcionários com seus familiares.

Todos reunidos, conversando, falando alto, rindo...

Acho que deveria ter uns onze ou doze anos...

Logo depois do almoço, saímos da nossa mesa. Minha irmã caçula e eu e resolvemos andar pela churrascaria pra distrair, ver o lugar, as pessoas, brincar...

Não sabia quem era o senhor que estava nos chamando, mas sabia nossos nomes.

Provavelmente alguém que trabalhasse próximo ao meu pai. Ele veio sorridente e perguntou : - Tudo bem com vocês? Venham tomar sorvete com a gente...

Eu olhei pra cima na direção daquele senhor... e respondi: - Eu preciso perguntar para o meu pai primeiro, depois a gente volta...

Mesmo que fossem pessoas conhecidas eu e minhas irmãs nunca aceitávamos nada de ninguém.

Nenhum doce por mais pequeno que fosse...

Por obediência e educação e sem escândalos.

Mesmo eu sabendo que era um amigo de meu pai, fui levada ao que estava acostumada. Sempre perguntar se eu poderia...
Bom até aquele momento...

Ah ... O sorvete... Meu pai deixou, também ele não era tão rígido assim, afinal era sábado...
Tomamos uma taça cheia de sorvete de morango.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Persuasão, sorte ou ato divino?...

Há sete anos atrás abusei da sorte, fui inconsequente e quase fui dessa pra melhor...

E minha irmã quase embarcou junto...

Triste ingenuidade ou graças aos céus meu anjo da guarda existe.

Já passava das 14:30 minutos ... Mas do nada resolvi, eu vou fotografar... Preciso! E pensei, ... Onde?

Arrastei minha irmã pra me ajudar e fazer umas anotações enquanto eu fotografasse.
O lugar escolhido é abençoado de alguma forma, mas seria o último lugar a receber visitas por alguém numa plena tarde ensolarada de sábado.

Saudade era o seu nome... Cemitério da "Saudade".

Comecei a fotografar aqui e ali. Algumas esculturas, closes, paisagens, mudando a velocidade, e o diafragma da câmera fotográfica...

A entrada ficava distante mas era possível vê-la ainda. Andamos um pouco até chegar numa encruzilhada debaixo de uma grande figueira.

Quando de repente, ouvimos um zunido parecido com enxame de abelhas misturado com vozes numa linguagem incompreensível. Procurávamos as abelhas mas nada delas na nossa frente. Olhei pra ela e vice-versa.
- Você ouviu o que eu ouvi?, perguntou minha irmã. Respondi : -Não é possível, o que foi isso? Eu não to vendo nada na minha frente...

Será que foi um sinal?

Eu não me importei muito com o ocorrido e continuei clicando. Conversando, fotografando e andando não percebemos o quão distante estávamos da entrada ou o sol quase em poente... e sozinhas.

A hora que percebi dois homens maltrapilho de olhos negros perto de um túmulo. Já era tarde demais pra correr...

Um deles caminhou em nossa direção. Ficamos paradas fazendo de conta que eu fotografava.

Ele chegou se esgueirando pelo caminho, e postou-se a nossa frente, com uma voz arrastada e baixa disse: -Vocês não querem fotografar lá em baixo? Tem o túmulo do pai caboclo...

Não demorei a responder, não gaguejei e fui persuasiva: - Não vai dar, a foto não vai ficar boa, falta mais luz. Vai ter que ficar pra uma próxima vez... Mas valeu, obrigada!

Após a resposta ele se distanciou de nós em direção ao outro elemento...

Assim que ele se virou, puxei a pelo braço em silêncio. E demos a volta também sem falar nenhuma palavra, andamos apressadamente pelo caminho que viemos.

Na metade do caminho encontramos um vigia fazendo a ronda de carro. Ele disse espantado: - O que vocês duas estão fazendo aqui dentro do cemitério? Já fechou...

Estávamos a salvo...

Solo sagrado... apesar de ser um cemitério abrigando túmulos e histórias passadas é uma terra abençoada onde aqueles que respeitam a vida e morte são protegidos.

Reconheço que abusei da sorte.

Obrigada mais uma vez meu anjo da guarda!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Molas nos meus pés...parte 1


O sol irradiava um brilho tão intenso da minha janela. E isso realmente não me importava...

O tombo...

Em relação àqueles dias onde a pior pessoa morava dentro de mim. Derrotada, vulnerável, triste, burra, feia, fraca, otária, sem forças ou vontade de sair da cama...

Uma dor no peito insuportável tomava conta do meu coração e o choro, contido em algum canto dos meus olhos...

Não gosto de relembrar como foram esses dias...

Descritível, doloroso e amargo como fel.

Eu poderia ter voltado pra ele mesmo depois que lágrimas foram derramadas no meu rosto, no rosto dele.

O sentimento de enlace era muito forte entre nós dois. Mas era chegada a hora do adeus.

Por mais que eu amasse e sentisse falta do seu beijo, do seu cheiro, do seu abraço, da sua presença...

Eu não hesitei quando devolvi suas chaves, saí do carro e não olhei pra trás...

Na época tive dúvidas quanto a minha atitude. "Será que eu fiz o que era certo?"...

Sofri...Chorei...Caí...Mas sobrevivi!

Hoje, penso que foi melhor assim, do contrário estaríamos indo e voltando e acabando no mesmo lugar presos num ciclo vicioso.

E juntos por conveniência.


Continua...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Mico pérola dourada...

Tem dias que o melhor é não sair da cama!

A voz ecoa longe e aí ... É tarde demais...

Uma vez na recepção do meu trabalho, estava eu preenchendo a ficha do paciente com seus dados pessoais.

Ele estava acompanhado de uma mulher.
Fui colocando item por item, nome, idade, local... E acompanhante?
Eu perguntei: -Quem veio com você?, seu acompanhante? O rapaz respondeu:- Ela...
E comentei:- É a sua mãe?... Ele respondeu achando graça:- Não ela é minha esposa....

Caramba... Que vergonha!!!

Ah como eu queria ser uma avestruz naquela hora...
E não tinha nenhum buraco na hora pra eu me esconder. Apenas senti meu rosto ficando rubro quase roxo...
Terminei o mais rápido possível a ficha dele ...

Mico!!!
Pérola!!
M...dourada!!!

domingo, 4 de janeiro de 2009

Violência ... parte 1

Acabei de assistir a uma reportagem no fantástico sobre menor infrator, o tal de dimenor...

Na hora me recordei de um episódio que vivi como expectadora, e quase personagem...

Estava esperando o ônibus pra voltar pra casa, na Benjamin Constan. Subi a escada e fui entrando, paguei a passagem. De repente uma gritaria do lado de fora, e todo mundo parou pra assistir.

Um adolescente discutindo com um senhor que estava na calçada, tranquilo, também esperando o seu ônibus chegar. Depois apareceu mais um moleque, a discussão foi piorando a ponto do outro moleque ter a ousadia de dar um tapa no rosto daquele senhor....

Meu Deus... Que mundo é esse?...

Minha vontade era de pular daquele ônibus e pegar aqueles dois, não só minha, mas de todos que estavam dentro do veículo.

Até o motorista demorou pra engatar a primeira marcha. Talvez, estivesse esperando qual seria o desfecho daquela situação.

Minutos depois, "aqueles marginais", sairam correndo após perceberem o tumulto que causaram.

Aonde erramos?
Esse mundo anda de pernas pro ar...
Crianças que não são mais crianças, aguardam liberdade mesmo sendo reincidentes e homicidas?
Se não fosse somente por furtos, mas a crueldade que ronda os assaltos e arrastões.
Espancam, estupram e matam sem misericórdia.

Futuros marginais... que ao caírem nos hospitais baleados...
Não morrem...
Estatísticamente, bandido não morre, os mocinhos sim!

Dias normais...


Eu pensava que era uma "super mulher", assim eu presumia...

Já vivi muita coisa nos hospitais onde trabalhei. Aprendi com aqueles que amam a enfermagem a ter respeito, admiração e compaixão pela profissão. Não é fácil, principalmente quando você é muito nova (comecei a trabalhar com dezenove anos) e se torna responsável por outra pessoa.

Adorava conversar com os paciente da ala geral de adultos muitas histórias fascinantes, conheci uma vez um senhor que foi aviador da segunda guerra mundial.

Quando fui do berçário, lembro de um pai emocionado que quase desmaiou na porta do centro cirúrgico.

Já fui paciente também, sei como a gente fica vulnerável, e quanto é importante ter alguém em quem confiar e receber apoio.

Não me arrependo em nenhum momento de ter escolhido este caminho...
Todas essas experiências vividas lidando com pessoas, pacientes, colegas de trabalho, vida e morte, ajudaram a formar a pessoa que sou hoje.

Mas... É uma carga emocional muito pesada...

Adoro trabalhar com pessoas, mas muitas vezes eu ficava pensando muito em minha vida quando "coisas normais" aconteciam no hospital...

Às vezes, você tem que ser um pouco sarcástico se quiser sobreviver e ficar em sã consciência. Lidar com doença e morte todo santo dia? Uma hora ou outra a gente acaba fazendo piada da morte pra não emlouquecer...

Um dia, na uti neo infantil, acompanhei a recente mãe se despedir de seu filho... Só ouvi de longe a mulher chorora dizendo: - Adeus meu filho, a gente se encontra um dia em outro lugar...
Só me lembro que respirei fundo, e voltei a trabalhar.

Um outro dia, ao entrar no quarto do paciente. Ele estava na fase terminal, mas estava em plena consciência. Conversando, ele brincou: - Se eu apostar e ganhar você faz uma coisa por mim?. E eu, sem saber respondi, - Depende, mas o que você queria?
-Reza por mim...
Novamente, eu respirei fundo e continuei a trabalhar.

E num dia qualquer da semana, lá estava eu com uma paciente, colega de profissão. Estava pronta pra levá-la ao chuveiro. Ela estava tão emagrecida, fase terminal também. Conversávamos... e ai ela me olha e diz: - Essa água caindo do chuveiro, eu estou morrendo de sede, mas sei que se engolir só um pouquinho eu vou passar mal depois...
Eu olhei pra cima, depois pra ela sem dizer nada. Mas por dentro eu queria chorar e não podia naquele momento. Respirei fundo e novamente voltei a trabalhar.

Havia também aqueles que chamavam de highlanders... Já imaginou o porquê não?...
Mesmo esses que estavam vegetando, não falavam ou se mexiam, eram dependentes totais da equipe de enfermagem. Seus olhos traziam tristeza, conformidade e dor...

Tudo isso faz parte da rotina de um hospital...

Embora tudo isso faça parte de mim, já não sou mais aquela pessoa que suportava toda a rotina como dias normais... A super mulher?... Não passa de uma pessoa comum... O tempo foi passando e eu mudei, "amoleci"...

Tenho muita admiração e respeito por aqueles que escolheram trabalhar na área de saúde por amor ao próximo e vocação.

Há treze anos trabalho e continuo trabalhando na área da saúde, por enquanto... Pois meus planos para o futuro encontram-se em minha outra profissão...

FOTÓGRAFA.....

É uma outra história...