
O bairro era residencial, então só crianças circulavam pela rua, andando, brincando, conversando, passeando de bicicleta...
A menina que morava do outro lado da rua, não conversava, a maior parte do tempo, vivia reclusa na frente da sua casa, presa para não fugir ou machucar ninguém...
Ela gritava muito, e quando se aproximava das crianças, mordia-lhes as mão...
Pobre criança...
Não que fosse algo marcante pra mim. Pois por muito tempo ela se perdeu em minhas lembranças.
Um dia de volta aquela cidade onde passei parte da minha infancia, a vizinha que pensávamos nunca mais reencontrar, estava lá...
E relembrando outros tempos, muitas pessoas, a menina chegou ao assunto da mesa...
O que aconteceu com aquela menina, aquela que morava na casa da frente?...
A velha senhora, franziu a testa olhando pra baixo, e lamentando-se olhou pra nós contou...
- A Camila não...? Depois que vocês se mudaram, uns 5 anos depois ela morreu...
Ela ficou uma noite inteira do lado de fora junto ao portão, era inverno e estava muito frio. Ninguém a viu... Encontraram na de manhã com as duas mãos segurando as grades do portão...
Naquela hora, pesamos sua perda e mais nada.
Mas hoje relembrando o que havia acontecido. Volto ao passado, lembro do medo que tinhamos dela por não compreender seu mundo e suas atitudes.
Nesse caso, acredito que por mais irracionais fossem suas atitudes. Ela era apenas uma criança solitária...
Recordo me dos dias, aos finais de semana, todas as crianças, incluindo eu e minha irmãzinha, brincando e correndo pela rua, e lá distante, e do outro lado da calçada, a menina observando e segurando as duas mãos no portão.
2 comentários:
Eu tinha me esquecido que a dona Lola nos contou sobre a Camila.
Lembro que todas as crianças da rua tinham medo dela, e o pior de tudo é que nossas mães intensificavam esse medo. A nossa mãe sempre falava pra que ficássemos longe dela, pra que corrêssemos pra casa caso a encontrássemos. Muito trágico o que aconteceu com ela...
Vendo um menino que sempre gritava no centro cirurgico, ele estava lá, acompanhei ele até a sala de exames, tudo foi explicado pra ele, comportou-se, e quando acordou da anestesia, era como se fosse outra criança...
Talvez, se a Camila fosse viva hoje, ela teria uma chance de estar entre nós, visto que hoje os tempos são outros...
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